Se uma pessoa fizer o bem, deixe-a fazê-lo repetidamente.
Deixe-a encontrar prazer nisso, pois, bem-aventurado é o acúmulo de bem.
Vivemos numa sociedade em que o bem, muitas vezes, é visto como exceção. Uma gentileza na rua surpreende. Um gesto de solidariedade comove. E isso já diz muito sobre o estado ético em que nos encontramos. Mas eis uma provocação: e se o bem deixasse de ser exceção para se tornar hábito?
Se uma pessoa faz o bem — e o faz de maneira autêntica — que o faça repetidamente. E mais: que encontre prazernisso! Porque, ao contrário do que muitos pensam, a ética não é peso. A ética, quando vivida plenamente, é prazer. É alegria. É afirmação da vida.
A ideia de que fazer o bem é sacrifício é uma distorção. Claro, há renúncia. Claro, há esforço. Mas há também — e sobretudo — deleite existencial. É o contentamento que nasce quando se sabe estar no lugar certo, fazendo o que é certo, por motivos que transcendem o próprio umbigo.
Por isso, não devemos apenas tolerar o bem: devemos incentivá-lo, celebrá-lo, cultivá-lo como quem rega uma flor rara. Porque quanto mais ele se repete, mais se enraíza. E quanto mais se enraíza, mais frutifica.
Spinoza já dizia que a alegria é o aumento da potência de existir. Ora, fazer o bem, nesse sentido, é uma das formas mais poderosas de expandir essa potência. É viver com intensidade ética.
E o mais bonito de tudo é que o bem se acumula. Não como moedas num cofre, mas como luz em uma casa. A cada gesto, uma fresta se abre. A cada atitude, mais claridade entra. Até que um dia, talvez, toda a escuridão se renda à luminosidade do hábito virtuoso.
Portanto, se alguém fizer o bem, que o faça de novo. Que o repita. Que sinta prazer nisso. Porque bem-aventurado é aquele que transforma o bem em cotidiano.