As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir.
Num mundo cada vez mais veloz, as pessoas seguem a correnteza como folhas secas levadas pelo rio. Obedecem mecanicamente às rotinas diárias, despertam ao som do despertador, percorrem os mesmos trajetos, repetem os mesmos gestos e encerram o dia com a sensação de que apenas sobreviveram, mas não viveram.
E o mais perturbador: fazem isso resignadas, já de antemão convencidas de que nada pode ser diferente. Como se o curso da vida fosse uma engrenagem inflexível, indiferente a qualquer tentativa de mudança. Não apenas aceitam a ordem das coisas, mas também se persuadem de que suas ações – ou até mesmo a recusa em agir – são irrelevantes.
Por que isso acontece? Talvez porque mudar seja doloroso. Alterar o curso da corrente exige esforço, coragem e, sobretudo, consciência. E a consciência, por vezes, dói. É muito mais cômodo flutuar com os olhos fechados do que enfrentar o peso de decisões que podem transformar o próprio destino.
No entanto, ao permanecer inerte, o sujeito não percebe que a inércia é, por si só, uma escolha. E uma escolha carregada de consequências. Cada momento em que renunciamos a agir é um momento em que reforçamos a prisão das circunstâncias que tanto nos esmagam. Como dizia Sartre, não escolher já é uma escolha – e não há como escapar dessa responsabilidade.
A vida, portanto, não é aquilo que nos acontece passivamente. É aquilo que construímos a partir do que nos acontece. Mesmo diante de forças aparentemente imutáveis, cada gesto, cada recusa, cada decisão – por menor que pareça – pode ser a fagulha inicial de uma transformação mais ampla.
A grande tragédia não é a rotina em si, mas a consciência anestesiada, a crença paralisante de que nada pode ser feito. Recuperar a potência de agir é, talvez, o primeiro passo para devolver sentido ao ato de existir. Afinal, se estamos vivos, podemos mudar. E se podemos mudar, é imperativo tentar.